26 de set de 2010

O BRASIL PARA OS BRASILEIROS, VEJA COMO ELES SE DEFEDEM!!!

O conto da xenofobia

A propaganda direitista contra estrangeiros baseia-se em preconceitos e suposições erradas. A longo prazo, os maiores prejudicados serão os europeus

Socialista sueco pede votos contra o xenófobo "Democratas" no dia  da eleição
A eleição sueca de 19 de setembro confirmou uma perigosa tendência vista em vários países do antigo “Primeiro Mundo”: o crescimento da direita populista baseada na intolerância aos migrantes. Principalmente os vindos do antigo “Terceiro Mundo”, mas também minorias  originárias de países mais pobres da própria Europa, como os ciganos da Romênia – frequentemente com conotações racistas implícitas e às vezes muito explícitas.
Na Suécia, o partido xenófobo da direita – por ironia, “Democratas da Suécia” – obteve 5,7% dos votos e 20 das 349 cadeiras do Parlamento e pôde ser o fiel da balança em um Legislativo dividido quase ao meio entre conservadores e social-democratas, com ligeira vantagem para os primeiros. “A bandeira da tolerância foi arriada e forças obscuras fizeram a democracia sueca de refém”, escreveu o editorial do jornal conservador Expressen.
Na Alemanha, o diretor do Banco Central e político social-democrata Thilo Sarrazin (cujo sobrenome, ironicamente, é cognato de “sarraceno”) publicou um livro chamado A Alemanha Destrói a Si Mesma, no qual incita a xenofobia popular afirmando que, ao “produzir mais garotinhas de véu”, turcos e árabes reduzirão os alemães a minoria no próprio país até 2100 e serão 70% em 120 anos. A obra transpira não só  preconceito cultural, como também racismo, pois atribui o mau desempenho escolar dos filhos de imigrantes à genética. Mas a primeira edição esgotou-se em dias e 18% dos alemães se disseram dispostos a votar no partido que o autor fundar. Mein Kampf não teve uma recepção tão entusiástica enquanto Hitler não chegou ao poder.

12 de set de 2010

Noam Chomsky na China

Embora o desenvolvimento da China tenha retirado milhões da pobreza, os custos, como a degradação ambiental, são elevados, diz Noam Chomsky nesta entrevista ao Southern Metropolitan Daily.
Chomsky entrevistado na China
Chomsky entrevistado na China

A 13 de Agosto, Noam Chomsky fez um discurso na Universidade de Pequim. Chomsky, um dos intelectuais mais influentes do nosso tempo, é célebre pelo seu activismo político e pelas suas contribuições linguísticas e filosóficas. A palestra, intitulada Contours of World Order: Continuities and Changes (Contornos da Ordem Mundial: continuidades e mudanças), versou principalmente sobre as duas principais ameaças que a humanidade enfrenta: guerras nucleares e degradação ambiental.
Embora Chomsky tenha voltado a colocar a tónica das suas críticas nos Estados Unidos, também expressou as suas opiniões sobre a China. Na opinião de Chomsky, os países emergentes, como a China e a Índia, ainda têm um longo caminho a percorrer para desafiar a América. Especialmente preocupante é o custo ambiental do modelo de desenvolvimento da China e os muitos problemas internos e sociais que o país tem de enfrentar. Esta semana, o Southern Metropolitan Daily publica uma entrevista com Chomsky. Um trecho da entrevista está traduzido abaixo.
A maioria dos chineses aceitou a globalização. Nas últimas três décadas, especialmente depois de a China ter aderido à Organização Mundial do Comércio (OMC), muitos chineses beneficiaram extraordinariamente. Mas parece que o senhor encara a globalização com maus olhos.
O sucesso económico da China tem pouco a ver com a globalização. Está relacionado com o comércio e a exportação. A China tem vindo a tornar-se um país orientado para a exportação. Ninguém, inclusive eu, se opõe às exportações. Mas isso não é globalização. De facto, a China tornou-se uma fábrica no sistema de produção do nordeste asiático. Olhando para o conjunto da região, constata-se que é muito dinâmico. O volume de exportações da China é enorme. Mas há algo que temos negligenciado. As exportações da China dependem muito das do Japão, da Coreia e dos EUA. Estes países fornecem à China componentes e tecnologias de ponta. A China está apenas a fazer a montagem e a rotular os produtos finais como "Made in China".
A China desenvolveu-se rapidamente por seguir políticas perspicazes. Mas, embora milhões de pessoas tenham sido retiradas da pobreza, os custos, tais como a degradação ambiental, são elevados. Estão simplesmente a ser adiados para a próxima geração. Os economistas não se irão preocupar com eles, mas estes são custos que alguém vai ter de pagar um dia. Podem ser os seus filhos ou netos. Isto não tem nada a ver com globalização nem com a OMC.
Pensa que a ascensão da China irá mudar a ordem mundial? A China irá desempenhar o papel que os E.U. estão agora a desempenhar?
Não penso que isso vá acontecer, nem o desejo. Será realmente desejável ver a China com 800 bases militares no exterior, a invadir e a derrubar outros governos ou a cometer actos terroristas? Que é o que a América está a fazer agora. Penso que isso não irá, nem poderá, acontecer na China. Também não o desejo. A China já está a mudar o mundo. A China e a Índia, juntas, são responsáveis por quase metade da população mundial. Estão a crescer e a desenvolver-se. Mas comparativamente, a sua riqueza é apenas uma pequena parte da riqueza mundial. Estes dois países têm ainda longos caminhos a percorrer e enfrentam problemas internos muito graves, que espero que sejam gradualmente resolvidos. Não faz sentido comparar a sua influência global com as dos países ricos. Tenho a esperança de que venham a exercer alguma influência positiva no mundo, mas temos de estar atentos a isto.
A China deveria questionar-se sobre o papel que pretende assumir no mundo. Felizmente, a China não está a assumir o papel de agressor, com um grande orçamento militar, etc. Mas a China tem um papel a desempenhar. É um gigantesco consumidor de recursos, e existem prós e contras. Por exemplo, o Brasil irá beneficiar economicamente se exportar para a China. Por outro lado, a sua economia também sofrerá danos. Para os países com grandes recursos, como o Brasil e o Peru, um dos problemas é a sua dependência das exportações de recursos primários, o que não é um bom modelo de desenvolvimento. Para alterarem o seu modo de desenvolvimento, têm de começar por resolver os seus problemas internos e transformarem-se em produtores, não apenas exportar produtos primários para outros países produtores.
O sucesso da China é um desafio para as democracias ocidentais?
Façamos uma comparação histórica. A ascensão dos Estados Unidos foi uma ameaça para a Grã-Bretanha democrática? Os Estados Unidos foram fundados com base no massacre de populações indígenas e no sistema esclavagista. É desejável que a China assimile este modelo? É verdade que os EUA progrediram para um país democrático, poderoso em muitos aspectos, mas a sua democracia não evoluiu a partir deste modelo que ninguém de bom senso quereria imitar.
A China está a desenvolver-se, mas não há nenhuma evidência que prove que o seu desenvolvimento interno seja uma ameaça para o Ocidente. O que está a desafiar os EUA não é o desenvolvimento da China, mas a sua independência. Esse é o verdadeiro desafio.
Pode dizer-se, pelas manchetes diárias dos jornais, que a política externa dos EUA se centra actualmente no Irão. O ano de 2010 é chamado “O Ano do Irão”. O Irão é descrito como uma ameaça para a política externa dos EUA e para a ordem mundial. Os EUA impuseram sanções severas e unilaterais, mas a China não lhe seguiu o exemplo. A China nunca seguiu o exemplo dos EUA. Em vez disso, apoia as sanções da ONU, que são demasiado débeis para terem importância. Poucos dias antes de deixar a China, o Departamento de Estado dos EUA advertiu a China de uma maneira muito interessante. Disse que a China tem de assumir as responsabilidades internacionais, ou seja, seguir as ordens EUA. São estas as responsabilidades internacionais da China.
Isto é o imperialismo típico: os outros países têm de agir de acordo com os nossos desejos. Se não, são irresponsáveis. Acho que os funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês devem rir-se quando ouvem isto. Mas essa é a lógica típica do imperialismo. De facto, o Irão constitui uma ameaça, porque não segue as instruções dos EUA. A China é uma ameaça maior, porque o facto de uma grande potência se recusar a obedecer a ordens constitui um grande problema. Este é o desafio que os EUA enfrentam.